Retalhos De portugueses sou descendente. Meu sobrenome revela. De brasileiros sou filho. Meu nome e sobrenome também o revelam. José Maurício Ribeiro Porto. Do Padre, o José Maurício, tenho em comum, o cristianismo, a paixão enlouquecida pela música e o prazer, segundo contam, de fazer filhos. Eu, fiz quatro. Ele, dizem as boas línguas, fez bem mais do que eu. No Rio de Janeiro nasci, mas em meus sonhos, lembranças, felicidades e tristezas e em todos os cantos e recantos do meu ser muitas vezes está ele, Fernando Pessoa. Tenho a alegria dos cariocas, dos brasileiros, mas guardo bem escondido em meu peito uma certa melancolia e uma solidão que, de tanto senti-las, trato-as como se amigas fossem e me pergunto se não são elas retalhos longínquos do meu ser lusitano. Maurício Porto, Rio, 21 de abril de 2013. Do meu livro: Ladeiras do Silêncio (Modificada em 12 de agosto de 2013).
As ladeiras como sempre, sabiamente, permanecem em silêncio. O casal de sabiás que mora na mangueira do jardim da minha casa, para de cantar e fica quietinho. Os pássaros da vizinhança, mesmo os insuportáveis pombos, silenciam. Os outros passarinhos sabem tudo, nasceram músicos, eles também emudecem. Outros invasores pássaros que volta e meia por aqui aparecem, barulhentos, desengonçados, meio-humanos, maritacas e tucanos, por pura imitação também calam o bico. Todos, todos, silenciam paradinhos como enfeites de cera pintada de árvores de natal de antigamente, iluminadas por velinhas, daquelas fininhas, coloridas de dezembros. Nada de pisca-pisca de histéricas, neuróticas e elétricas lampadinhas. Eu juro, eles sábios passarinhos nem piscam, somente ouvem o sofisticado e encantado piano de Keith Jarrett. Num quase impossível silêncio desses naturalmente iluminados serezinhos voadores e afinados cantores, o casal de sabiás se entreolha e começa a conversar baixinho, para os outros não ouvirem. Falam com os olhinhos apenas, num inaudível diálogo. Coisa de passarinho. Eu, imóvel, estátua, quase etéreo, me torno invisível na porta da varanda da minha casa. Emocionado pude ouvi-los, acreditem vocês ou não. A sabiá disse: - O Maurício parou de tocar e agora só está ouvindo o Keith Jarrett. Que piano bonito, meu Passarinho Deus! Seu companheiro lembrou: - É...faz tempo que ele não ouve Tom, Edu, Chico, Villa-Lobos, Pixinguinha, Noel, Ary, Caymmi, Cartola, Nelson Cavaquinho, João Gilberto, João Bosco e tantos outros... - Você até parece que não conhece ele. Ele adora jazz, mas ele gosta mesmo é de todos esses e outros que você não citou que ele chama de gênios! Ele é assim...isto é apenas uma fase... daqui a pouco, fique tranquilo, ele retoma o seu caminho... ele é louco pela música brasileira. Eu também...tô com muita saudade de ouvir o Chico e o Tom. - Pudera, eles fizeram uma música tão bacana pra você, não é? - Puxa! você falou igualzinho ao Tom. Ele gostava de falar "bacana, não é?" - É...o Tom gostava de falar bacana. E o Vinícius, hein?...que cara legal! Às vezes eu penso... que bom seria para eles humanos, "Se todos fossem iguais a Vinícius e Tom", mesmo que impossível, mas que ao menos tentassem. Os humanos deveriam ser mais passarinhos do que humanos...o mundo seria muito melhor. Chego mesmo a desejar que todos eles nascessem passarinhos. A sabiá sorri e corrige o seu companheiro: - Passarinhos não... Passarim.
Em memória de Tom Jobim,
um dos caras mais bacanas
que nasceram na Terra.
O único ser humano que nasceu Passarim!
Maurício Porto, Rio de janeiro, 1 de dezembro de 2011.
HEITOR VILLA-LOBOS, O MAIOR COMPOSITOR BRASILEIRO !!!
The National Children's Orchestra of Great Britain's Main Orchestra performs Villa-Lobos' The Little Train of the Caipira at The Sage Gateshead on 6 August 2011, conducted by Natalia Luis-Bassa. Produced by Black Swan Film and Video. Fonte:YouTube PS: Cliquem no quadrado no canto inferior direito do vídeo, para ver a imagem ampliada ao máximo.
Então imagino, fantasio, viajo, me excito, enlouqueço!
Elas devem ter um secreto poder
de saltarem para uma outra dimensão.
Saltos talvez femininamente quânticos,
que nunca... nunca nos revelarão.
De tão natural talvez nem o saibam,
e se por acaso souberem,
sabiamente, jamais confessarão.
Que assim o seja
para todo o sempre. Mulheres são esfinges: - Decifra-me ou te devoro! Confesso. Nunca fiz o menor esforço para decifrá-las. Adoro ser por elas devorado!
Do silêncio, solidão, eu saio. Saio. Parto. Volto ao mundo. Nasço um nascimento. Mais um... Me parto e renasço com mais vontade de viver. Hoje? Vou ao cinema! Feliz, feliz da vida! Assim estou e o filme começa, e a ficha vai lentamente caindo. É um filme argentino com Darin, é claro. Na platéia me vendo sem nada falar, ele me diz: - desista! - Não Darin, respondo. Sigo, prossigo, cabrero, confesso: Menino teimoso! Diria minha mãe. Insisto. Viro, me reviro na poltrona. Minha vida revirada na tela. Tento fugir, não consigo. No escuro, um vulto se aproxima. É Gardel! Não acredito! Gardel ou o seu fantasma, pouco me importa, para mim é Gardel em pessoa. Ele começa a cantarbaixinho um tango estranho e antigo, esquecido numa vitrola, num cassino abandonado em Mar del Plata. Desisto, me entrego, entro cada vez mais no filme. Gardel me inspira e me vejo cantando um tango silencioso, de saudades que não me lembro, tristezas oblíquas, negativos mofados de fotos que nunca revelei. Pequenos papéis achados nos perdidos, cheios de nomes e telefones de quem esqueci. Mulheres que se foram e às vezes voltam, em sonhos que me acordam, por saudade ou vingança, por mim inventadas e não me deixam dormir sossegado. O filme termina. Darin tinha razão. Gardel se afasta e me deixa um tango apenas por mim escutado, nesta mais uma noite de encontros esperados que jamais encontrei. Procuro um rápido abrigo, uma porta me escolhe, entro e me arrependo, mas a noite me empurra. Vozes insuportáveis de um infinito barulho, bar lotado, entupido, cheio de mesas que falam próximas, que de tão próximas me faço íntimo de pessoas que nunca vi. Minha privacidade invadida reclama, meu ser cansado, o interior falido, concorda. Me vejo cercado de almas que bebem felizes e outras, perdidas, desesperadas buscam um inesperado encanto nos trôpegos desenganos de noites vazias de fim. Meu chopp chega, bebo rápido de ir embora. Não dá! desisto. Levanto acampamento, pago, saio, esqueço, subo a ladeira de casa. Um vulto se aproxima. Gardel de novo? Mais um tango? Não, não é Gardel, Meu Deus, é Bandeira! Gentil, num silêncio solidário, me acompanha ladeira acima até a minha casa. No meio do caminho, hoje, não tem Drummond e nem a sua pedra. Hoje, só tem Bandeira. Chego na porta de casa. O seu silêncio me intriga. O que ele faz aqui? Enfim ele se chega, segura meu braço e diz: - Fale, fale... Não me contenho e começo a falar. No início cheio de dedos. Conto-lhe o filme, o que Darin me disse, Gardel e os tangos, e os pedaços do pouco que sobrou de mim. Me empolgo, falo mais alto, Bandeira me instiga. - Conte, conte mais. Sua voz também sobe. Minha mulher acorda assustada, abre uma janela discretamente. Os vizinhos acendem as luzes, os cães ladram, rosnam embriagados de sono. Pouco me importo, Bandeira, insiste:- Vamos, continue! Não resisto, num impulso grito em alto e bom som: - Meu caro Poeta, me desculpe, mas vou-me embora pra Argentina! Lá sou amigo de Darin. Lá terei a minha mulher que eu amo Na cama que escolherei. Cama? Pra que a cama? Sexo na sala é muito melhor! Pasárgada deve ser muito longe. Buenos Aires, é aqui do lado. Três horas de voo. Vou-me embora pra Argentina! Vou ser lanterninha de um cinema de Buenos Aires! Bandeira solta uma estridente gargalhada e como surgiu, desparece.
Para minha eterna solidão. Para Bety, minha mulher, que dela tenta me afastar. Em memória de Manuel Bandeira, Drummond e todos os poetas que me fizeram ver que a vida é a melhor poesia. Para Darin e o Cinema Argentino, que me fizeram entender, enfim, que o cinema e a vida são a mesma coisa. ¡Viva el cine argentino! Obrigado a todos vocês!
SONHEI QUE EU MORAVA NA BARRA / ILUSTRAÇÃO DIGITAL / 2007 / MAURÍCIO PORTO
Caros leitores,
Fiz esta ilustração digital, num dia qualquer de 2007. Logo após concluí-la, a enviei por email para meu irmão Carlos. Dois ou três dias depois, conversando comigo por telefone, ele comentou que havia gostado da ilustração e que só faltava um homem sentado no sofá olhando pro nada, pois assim lembraria Hooper. Respondi-lhe que eu havia pensado nisso mas que preferi mais a ausência do que a presença, pois assim os conhecedores do pintor iriam colocar mentalmente no sofá um solitário e perdido norte-americano da América de Hooper e completar minha proposital citação, feita apenas com a colocação de um móvel para alguém se sentar e ficar admirando o nada. Em Memóriade Edward Hooper, o pintor que eu mais gosto. Maurício Porto
AQUI E AGORA
O vento do tempo sopra e insiste em espalhar lembranças como folhas caídas ao meu redor. Pra que lembranças, pois do passado neste instante nada lembro. Tampouco de sonhos futuros pois deles também me esqueço. Que o vento desista ou procure outro norte. Que o tempo cate todas as folhas, sossegue e sem pressa, espere. Quando escrevo ou improviso no piano, dentro de mim não venta e o tempo, lá fora ou dentro, desaparece, some e termina, como este texto, aqui e agora. Maurício Porto, Rio, 5 de julho de 2011 Do meu livro - "Ladeiras do Silêncio".
Para Aloysio Neves, meu Mestre e amigo, professor, compositor e músico extraordinário.
Aqui vai um croquis de imaginação de minha autoria. Este jovem está sentado no Bar do Gomez. Quem é ele, não sei. Mas que é no Gomez eu tenho certeza. O Gomez é, para mim, o melhor bar do mundo, não fosse ele em Santa Teresa. Fica na Rua Áurea, a minha rua, na esquina com a Monte Alegre e está apenas a cem metros da minha casa. Por que ojovem está no Gomez?Porque, simplesmente toda vez que eu penso num bar, penso que lá estou, como sempre, desenhando mentalmente.
Santa Teresa, Rio de Janeiro, 18 de abril de 2008. Texto revisto em 1 de julho de 2011.
Hoje apresento-lhes um diálogo real: "O Pintor e o Menino".
O pintor: - Seu pai me disse que você quer ser pintor quando crescer, é verdade?
O menino: - Sim, é verdade!
O pintor: - Posso lhe dar um conselho?
O menino: - Pode.
O pintor: - Copie, copie, copie. Copie a reprodução das pinturas dos grandes mestres !!! Depois, quando você fizer 18 anos, peça ao seu pai para lhe mandar para Paris. Vá ao Louvre todos os dias e continue copiando. Copie, Copie e não desista. Não se preocupe, um dia a Sua Pintura Nascerá !!!
O menino: - Eu já faço isso, mas só que eu copio desenhos de gibi. Eu adoro desenhar cavalos e índios!
O pintor sorriu levemente e perguntou: - Quantos anos você tem?
O menino: - 12 anos.
O pintor: - Então eu vou lhe dar aulas de pintura, você quer?
O menino: - Claro que eu quero! O menino entusiasmado correu para perto do pai e falou: - Papai ele vai me dar aulas de pintura, eu vou ser pintor.
O pintor se aproximou do pai e disse: - Ele vai ser meu aluno.
O pintor: Cândido Portinari.
O menino: Eu, Maurício Porto.
Este encontro, que jamais esquecerei, aconteceu provavelmente em 1957.
Foi numa galeria de arte em Copacabana, na vernissage de uma exposição do extraordinário pintor argentino, Manoel Kantor. Portinari e Kantor eram grandes amigos de meus pais.
Infelizmente não pude ser aluno de Portinari. A tinta a óleo, a terebentina ou a água ráz, me provocavam fortes crises de asma. Foi muito triste para mim. Aos 12 anos desisti de ser pintor. Mas de uma coisa eu sei, não esqueci o conselho de Portinari.
Aos 21 anos comecei minha carreira de ilustrador de arquitetura. Não tenho a menor vergonha de dizer que copiei dezenas de croquis de arquitetura
de Le Corbusier, LúcioCosta, Oscar Niemeyer, Sérgio Rodrigues, Marcos de Vasconcellos e Luiz Carlos Neves. Um dia o meu croquis nasceu!
Até a próxima,
Santa Teresa, Rio de Janeiro, 25 de abril de 2008. Em Memória de Cândido Portinari.