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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

NCO: THE LITTLE TRAIN OF THE CAIPIRA. HEITOR VILLA-LOBOS

HEITOR VILLA-LOBOS,
O MAIOR COMPOSITOR BRASILEIRO !!!




The National Children's Orchestra of Great Britain's Main Orchestra performs Villa-Lobos' The Little Train of the Caipira at The Sage Gateshead on 6 August 2011, conducted by Natalia Luis-Bassa. Produced by Black Swan Film and Video.

Fonte: Youtube


quarta-feira, 16 de novembro de 2011

terça-feira, 15 de novembro de 2011

ESFINGES

ILUSTRAÇÃO DIGITAL / MAURÍCIO PORTO
















As mulheres me fascinam.
Mais ainda os seus 
indecifráveis silêncios.
Principalmente os de inesperados
olhares longínquos,
que me parecem intermináveis,
mesmo que durem segundos.
Para mim elas sabem 
o mistério da eternidade.
De repente retornam
como se nada tivesse acontecido.
Então imagino, fantasio, 
viajo, me excito, enlouqueço! 
Elas devem ter um secreto poder
de saltarem para uma outra dimensão.
Saltos talvez femininamente quânticos,
que nunca... nunca nos revelarão.
De tão natural talvez nem o saibam,
e se por acaso souberem,
sabiamente, jamais confessarão.
Que assim o seja
para todo o sempre.
Mulheres são esfinges:
- Decifra-me ou te devoro!
Confesso. 
Nunca fiz o menor esforço
para decifrá-las.
Adoro ser por elas devorado!


Maurício Porto
Rio, 15 de novembro de 2011.

Do meu livro - Ladeiras do silêncio


quinta-feira, 10 de novembro de 2011

CINEMA ARGENTINO


Do silêncio, solidão, eu saio. Saio. Parto. Volto ao mundo.
Nasço um nascimento. Mais um... Me parto e renasço
com mais vontade de viver. Hoje? Vou ao cinema!
Feliz, feliz da vida! Assim estou e o filme começa,
e a ficha vai lentamente caindo. É um filme argentino
com Darin, é claro. Na platéia me vendo sem nada falar, 
ele me diz: - desista! - Não Darin, respondo. 
Sigo, prossigo, cabrero, confesso: Menino teimoso! 
Diria minha mãe. Insisto. Viro, me reviro na poltrona. 
Minha vida revirada na tela. Tento fugir, não consigo. 
No escuro, um vulto se aproxima. É Gardel! Não acredito! 
Gardel ou o seu fantasma, pouco me importa, 
para mim é Gardel em pessoa. Ele começa a cantar baixinho 
um tango estranho e antigo, esquecido numa vitrola, 
num cassino abandonado em Mar del Plata. 
Desisto, me entrego, entro cada vez mais no filme. 
Gardel me inspira e me vejo cantando um tango silencioso, 
de saudades que não me lembro, tristezas oblíquas
negativos mofados de fotos que nunca revelei. 
Pequenos papéis achados nos perdidos, 
cheios de nomes e telefones de quem esqueci. 
Mulheres que se foram e às vezes voltam, 
em sonhos que me acordam, por saudade ou vingança, 
por mim inventadas e não me deixam dormir sossegado. 
O filme termina. Darin tinha razão. Gardel se afasta 
e me deixa um tango apenas por mim escutado, 
nesta mais uma noite de encontros esperados 
que jamais encontrei. Procuro um rápido abrigo,
uma porta me escolhe, entro e me arrependo, 
mas a noite me empurra. Vozes insuportáveis 
de um infinito barulho, bar lotado, entupido, 
cheio de mesas que falam próximas, que de tão próximas 
me faço íntimo de pessoas que nunca vi. 
Minha privacidade invadida reclama, meu ser cansado, 
o interior falido, concorda. Me vejo cercado de almas 
que bebem felizes e outras, perdidas, desesperadas 
buscam um inesperado encanto nos trôpegos desenganos 
de noites vazias de fim. Meu chopp chega, bebo rápido de ir embora. 
Não dá! desisto. Levanto acampamento, pago, saio, esqueço, 
subo a ladeira de casa. Um vulto se aproxima.
Gardel de novo? Mais um tango? Não, não é Gardel, 
Meu Deus, é Bandeira! Gentil, num silêncio solidário, 
me acompanha ladeira acima até a minha casa.
No meio do caminho, hoje, não tem Drummond e nem a sua pedra. 
Hoje, só tem Bandeira. Chego na porta de casa. O seu silêncio me intriga. 
O que ele faz aqui? Enfim ele se chega, segura meu braço e diz: - Fale, fale... Não me contenho e começo a falar. No início cheio de dedos.
Conto-lhe o filme, o que Darin me disse, Gardel e os tangos,
e os pedaços do pouco que sobrou de mim. Me empolgo, 
falo mais alto, Bandeira me instiga. - Conte, conte mais.
Sua voz também sobe. Minha mulher acorda assustada, 
abre uma janela discretamente. Os vizinhos acendem as luzes, 
os cães ladram, rosnam embriagados de sono.
Pouco me importo, Bandeira, insiste:- Vamos, continue!
Não resisto, num impulso grito em alto e bom som:
- Meu caro Poeta, me desculpe, mas vou-me embora pra Argentina! 
Lá sou amigo de Darin. Lá terei a minha mulher que eu amo 
Na cama que escolherei. Cama? Pra que a cama? Sexo na sala é muito melhor! Pasárgada deve ser muito longe. Buenos Aires, é aqui do lado. 
Três horas de voo. Vou-me embora pra Argentina! Vou ser lanterninha
de um cinema de Buenos Aires! Bandeira solta uma 
estridente gargalhada e como surgiu, desparece.


Para minha eterna solidão.
Para Bety, minha mulher, 
que dela tenta me afastar.
Em memória de Manuel Bandeira, 
Drummond e todos os poetas 
que me fizeram ver 
que a vida é a melhor poesia.
Para Darin e o Cinema Argentino, 
que me fizeram entender, enfim, 
que o cinema e a vida 
são a mesma coisa.
¡Viva el cine argentino!
Obrigado a todos vocês! 


Maurício Porto
Rio, 10 de novembro de 2011.

Do meu livro - Ladeiras do Silêncio