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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

PAPO DE SABIÁS

TOM JOBIM / ILUSTRAÇÃO DIGITAL

As ladeiras como sempre,
sabiamente, permanecem em silêncio.
O casal de sabiás que mora na mangueira
do jardim da minha casa, 
para de cantar e fica quietinho.
Os pássaros da vizinhança,
mesmo os insuportáveis pombos, silenciam.
Os outros passarinhos sabem tudo,
nasceram músicos, eles também emudecem. 
Outros invasores pássaros
que volta e meia por aqui aparecem,
barulhentos, desengonçados,
meio-humanos, maritacas e tucanos,
por pura imitação também calam o bico. 
Todos, todos, silenciam paradinhos
como enfeites de cera pintada 
de árvores de natal de antigamente, 
iluminadas por velinhas,
daquelas fininhas,
coloridas de dezembros. 
Nada de pisca-pisca
de histéricas, neuróticas
e elétricas lampadinhas. 
Eu juro, eles sábios
passarinhos nem piscam, 
somente ouvem o sofisticado 
e encantado piano de Keith Jarrett.
Num quase impossível
silêncio desses naturalmente
iluminados serezinhos voadores
e afinados cantores,
o casal de sabiás se entreolha 
e começa a conversar
baixinho, para os outros não ouvirem.
Falam com os olhinhos apenas,
num inaudível diálogo.
Coisa de passarinho.  
Eu, imóvel, estátua,
quase etéreo, me torno invisível
na porta da varanda da minha casa.
Emocionado pude ouvi-los,
acreditem vocês ou não.

A sabiá disse: - O Maurício parou de tocar
e agora só está ouvindo o Keith Jarrett. 
Que piano bonito, meu Passarinho Deus!

Seu companheiro lembrou: 
- É...faz tempo que ele não ouve 
Tom, Edu, Chico, Villa-Lobos, Pixinguinha, Noel,
Ary, Caymmi, Cartola, Nelson Cavaquinho,
João Gilberto, João Bosco e tantos outros...

- Você até parece que não conhece ele.
Ele adora jazz, mas ele gosta mesmo
é de todos esses e outros que você não citou 
que ele chama de gênios!
Ele é assim...isto é apenas uma fase...
daqui a pouco, fique tranquilo,
ele retoma o seu caminho...
ele é louco pela música brasileira.
Eu também...tô com muita saudade 
de ouvir o Chico e o Tom.

- Pudera, eles fizeram uma
música tão bacana pra você, não é?

- Puxa! você falou igualzinho ao Tom.
Ele gostava de falar "bacana, não é?"

- É...o Tom gostava de falar bacana.
E o Vinícius, hein?...que cara legal!
Às vezes eu penso...
que bom seria para eles humanos,
"Se todos fossem iguais a Vinícius e Tom",
mesmo que impossível, 
mas que ao menos tentassem.
Os humanos deveriam 
ser mais passarinhos
do que humanos...o mundo seria muito melhor.
Chego mesmo a desejar que todos eles
nascessem passarinhos.

A sabiá sorri e corrige o seu companheiro:
- Passarinhos não... Passarim.

Em memória de Tom Jobim,
o cara mais bacana
que nasceu na Terra.
O único ser humano que nasceu Passarim!


Maurício Porto,
Rio de janeiro, 1 de dezembro de 2011.


Do meu livro: Ladeiras do Silêncio



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