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segunda-feira, 1 de julho de 2013

- "CARTAS DE METRÔ" DE MOYSEIS MARQUES, UM SAMBISTA DE PRIMEIRA

MOYSEIS MARQUES


CARTAS DE METRÔ
MOYSEIS MARQUES

Do Metrô de Vicente de Carvalho
Passarela do mesmo baralho
Vi ases envelhecidos
De reis já empobrecidos
Senhora Aparecida
O que será daquele trem?
Que segue o trecho sentido Pavuna
Benefício administrativo
Descanso pro coletivo
Passagem por Inhaúma
Caminho do Juramento
O momento é Irajá

E lá que o baralho se cortou
Com água mais ardente sem Metrô
Surgiram novos cantores
Poetas, compositores
Alunos, professores
De bar, de criação, que esplendor!

As cartas de menor valor
tornaram-se valetes
com damas de respeito
companheiras e tiétes
Motivo pra que toda
A redondeza se alertasse
E jogasse seus coringas
Sobre a mesa 

E eu, mais um, no meio desse carnaval
tentando ser original
revelo minha poesia pra você
me transmitir seu parecer
De cada naipe extraio uma emoção
Brincando com a inspiração
E levo a minha vida de compositor
jogando cartas no Metrô...
... No Metrô de Vicente de Carvalho.

Caros leitores,

Sobre Moyseis Marques, leiam o que Ruy Castro, jornalista e escritor, um dos maiores especialistas em música popular brasileira, escreveu sobre ele em 2009.

Moyseis por Ruy Castro**

Moyseis Marques tem apenas trinta anos, mas sambistas como ele não devem ser medidos por suas idades cronológicas. Como continuadores de uma tradição, têm a idade dessa tradição. Parecem trazer dentro deles a herança, o eco, a lembrança de rodas de samba ancestrais, em remotas biroscas do Estácio ou da Cidade Nova, do tempo em que as coisas estavam realmente começando e seus praticantes se chamavam Newton, Ismael, Brancura, Bide ou Marçal. A filiação musical de Moyseis e sua identificação melódica e rítmica com o Estácio parecem tão nítidas – mesmo que por [ilustre] via de Elton Medeiros, Chico Buarque ou Luiz Carlos da Vila – que, estivessem vivos hoje, Chico Alves e Mario Reis já o teriam gravado.


Ao mesmo tempo, numa época em que, em mãos alheias, a música parece encolher para dar lugar a línguas foragidas de Babel, como o funk, o rap e a eletro-pancadaria, Moyseis canta valores como cozinhas ladrilhadas, pinga para o santo e feijão para os amigos – como em “Panos e planos” [dele, em parceria com Luiz Carlos Máximo]. Anacrônico? Não. No plano do samba, o tempo não passa e certos valores são constantes. E quando alguns, de repente, dão as costas ao Rio pelos mercados de fora, Moyseis toma o metrô para Vicente de Carvalho e vê pela janela o desfile de ases e coringas do Carnaval: “Surgiram novos cantores/ Poetas, compositores/ Alunos, professores/ De bar, de criação/ Que esplendor!” – como em “Cartas de metrô”, sua réplica ao fabuloso “Subúrbio”, de Chico Buarque, que ele também canta aqui e, no mano a mano, vê-se que a sua não fica a dever à viagem de trem do mestre. Não há bairro do Rio que não tenha suas próprias reservas de samba, e sábio será quem levar sua música para se abastecer delas. 


**Ruy Castro é autor de Carmen – Uma biografia (a vida de Carmen Miranda), Chega de saudade (sobre a Bossa Nova) e muitos outros livros, quase todos pela Companhia das Letras.

Fonte: do Vídeo YOUTUBE
Fonte: do texto de Ruy Castro: MIDIA21. NET WEB RADIO


Maurício Porto,
Rio, 1 de Julho de 2013


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